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Sobre a terra que os agrupava, não concebiam, pois, nada melhor a fazer além de discutir ou se distrair. Eis que por acaso, ou melhor, pelo efeito normal da idade, nossos olhos acabam por se abrir. Os mais ousados dentre nós alcançaram a ponte. Eles viram a nave que nos levava. Eles perceberam a espuma ao longo da proa. Eles se deram conta de que havia uma caldeira para alimentar - e também um leme a governar. E sobretudo eles viram flutuar as nuvens, eles aspiraram o perfume das ilhas para além da linha do horizonte: não mais a agitação humana ali - não a deriva -, mas a viagem."
Foi na Idade Média que a retomada do progresso tecnológico - com a diminuição do modelo escravocrata - se fez fulgurante uma vez mais, e assim surgiram na Europa, moinhos de água e de vento, arreios e estribos de cavalos, a roca de fiar, a rotação das culturas agrícolas, os óculos, a pólvora, o relógio mecânico, a bússola, a imprensa, permitindo substituir a força humana pela animal ou inorgânica, antecipando a grande arrancada do pensamento que levaria ao iluminismo e à revolução industrial. Prevendo e antecipando os acontecimentos, Francis Bacon, no final do século XIV, inverteu o pensamento de Aristóteles e em seu tratado Instauratio Magna propõe que tudo o que podia ter sido feito pela elevação do espírito, já havia sido feito pelos gregos e romanos e nada restava senão se dedicar à filosofia das obras, a aplicação do intelecto às coisas concretas, ao progresso da indústria para melhorar finalmente a vida prática do dia-a-dia.
Sabemos, e é possível compreender os anseios de Bacon, ao prever e antecipar o estabelecimento de uma nova ordem - assim como todos os humanistas que àquela época se insurgiram para a instalação do novo modelo social -: propor e estabelecer uma sociedade mais rica e igualitária, onde os valores de liberdade, igualdade e fraternidade fossem extensivos ao maior número de homens possível (pode-se citar outros nomes como Taylor e Ford, que a seu tempo, também buscaram em seu íntimo, aperfeiçoar as técnicas de produção ao extremo, vislumbrando um mundo em que fosse possível se produzir mais com menor esforço, e abastecer o mundo com todas as maravilhas que a criação humana poderia desenvolver. Essa sociedade tipicamente de Segunda Onda conforme Toffler, - também conhecida como Industrialismo - teve seu apogeu entre fins do Século XIX e primeira metade do Século XX.
Percebemos hoje que as sociedades tomaram um rumo adverso e o que poderia ser a redenção para a humanidade - livrar-se do trabalho repetitivo e cansativo (uma outra forma de escravidão?), das mazelas da pobreza e da doença, da fome, das guerras - proporcionando ao homem enfim, a possibilidade para dedicar-se ao seu desenvolvimento pessoal, sob o estabelecimento de um novo modelo social baseado uma vez mais nos pressupostos do iluminismo, não ocorreu. A busca incessante pela produção como um fim em si - ao mesmo tempo criando necessidades ilusórias e produtos descartáveis e frágeis, tanto quanto seus valores -, a acumulação, a devastação desenfreada da natureza, e um estilo de vida baseado na competição e egoísmo tornou-nos reféns de uma estrutura viciada. Ao invés desta nos servir, servimos a esta! Ora, o diabo, se existe, deve estar se deleitando! Também os dois modelos político-econômicos apresentados pelo Industrialismo se esgotaram, pois se o socialismo acabou, o capitalismo não venceu! - os indicativos a respeito são tão claros, tão diversos e tão comentados que não cabe relatar -. Juntamente ao naufrágio dessas superestruturas, os valores humanos e sociais relativos ao seu funcionamento, também se foram.
Felizmente - e por vias tortas e dolorosas - há um momento em que se não fazemos pela vida, a mesma faz por nós. Vivemos novamente uma encruzilhada da civilização. Apesar dos dissabores, a humanidade jamais foi tão rica e teve - diante de si - tantas possibilidades para se estruturar em alicerces mais altruístas. Reconheça-se aqui os muitos resultados positivos do Industrialismo; nunca se avançou tanto em tão pouco tempo na História do Homem! Se vivemos um momento caótico, nunca houve tantas condições para gerarmos uma nova sociedade (vivemos a destruição criativa de Schumpeter?). Novos valores estão germinando, e talvez tenha chegado o momento de uma nova Instauratio Magna, onde seja possível definitivamente conciliar os ideais de Aristóteles e Bacon.
O que cabe a nós então, Rosacruzes, Maçons, Templários? Assim como no passado, devemos - sempre dentro de nossas particularidades e com as nossas "armas" - fortalecer e incentivar o processo de transformação da sociedade! Um novo modelo social mais humanitário, mais livre e feliz. Esse novo modelo ainda não existe, mas por que não começar a pensá-lo? Por que não começar a propô-lo? Porque não? A quais outros caberia isto? Mais uma vez façamos nossa parte e comecemos a semear as sementes dessa nova civilização. Dispomos como nunca anteriormente de instrumentos excepcionais. A internet e as redes permitem a discussão e disseminação de novos ideais - sua força é enorme! -. Somos duplamente privilegiados ao dispor desse meio e ao dispor de conhecimentos fundamentais sobre os quais deve ser calcada a Humanidade. O futuro já chegou e não trouxe fórmulas prontas, mas possibilidades infinitas. Como disse Toffler em seu clássico A Terceira Onda, " algumas gerações nasceram para criar, outras para manter uma civilização (...) Hoje em todas as esferas da vida social, nas nossas famílias, nossas escolas, nossos negócios e igrejas, nossos sistemas de energia e comunicações, enfrentamos a necessidade de criar novas formas da Terceira Onda e milhões de pessoas em muitos países já estão começando a fazê-lo. Em parte alguma entretanto, está a obsolescência mais avançada ou perigosa do que na nossa vida política. E em campo algum encontramos hoje menos imaginação, menos experimentação, menos disposição para contemplar mudança fundamental.(...) Tão assustadora é a perspectiva de profunda mudança política, com os riscos que acompanham, que o status quo, por mais surrealista e agressivo que seja, subitamente parece o melhor de todos os mundos possíveis. Inversamente temos toda a sorte de pseudo-revolucionários, embebidos em pressuposições obsoletas da Segunda Onda, para quem nenhuma mudança proposta é bastante radical. Arcaico-marxistas, anarquistas românticos, fanáticos direitistas, guerrilheiros de poltrona, honestos terroristas graças a Deus, sonhando com tecnocracias totalitárias ou utopias medievais.(...) Entretanto o que nos aguarda à frente não é um replay de qualquer drama revolucionário anterior - nenhuma derrubada, dirigida centralmente das elites governantes por algum 'partido de vanguarda' com as massas a reboque; nenhum levante de massa espontâneo, supostamente catártico, desencadeado pelo terrorismo. A criação de novas estruturas políticas por uma civilização de Terceira Onda não virá em uma convulsão social climática única, mas como conseqüência de mil inovações e colisões a muitos níveis e em muitos lugares, através de um período de décadas.". Sigamos fratres e sorores, transmutando esse admirável mundo novo! A primeira revolução deve ser a de nosso pensamento e postura diante desse novo quadro!
Voltaremos ao tema!
Salud en la Rosa! Paz en la Cruz!
Flavius Khan
Referências
Aristóteles: "Metafísica"
Bacon, Francis: "Instauratio Magna".
Castells, Manuel: "A Sociedade em Rede"; "O Poder da Identidade"; "Fim de Milênio"
De Masi, Domenico: "O Futuro do Trabalho"; "A Sociedade Pós Industrial"
Levy, Pierre: "Cibercultura"; "A Conexão Planetária"
Rifkin, Jeremy: "The Age of the Acess"
Tofller, Alvin: "O Terceira Onda"; "O Choque do Futuro"